(...) Em síntese foi o que se passou no CACO (Clube Atlético de Campo de Ourique) no dia 29 de Abril às 21 e 45!!...
A abrir o espectáculo tocaram os “Aqui d'el-Rock”, apresentados como grupo “punk”. Como nós estamos desfasados em relação ao estrangeiro, agora que este tipo de grupos parecem encontrar algumas dificuldades, alguns estão mesmo a desaparecer, surgem em Portugal pelo menos dois.
Os "Aqui d'el-Rock" actuam pela primeira vez (que eu saiba) em Lisboa. Da actuação pouco há a dizer... péssimo som, impossível de se ouvir o que quer que fosse para além de um som compacto saindo da aparelhagem. Ainda por cima do ponto de vista musical aquilo que ouvi era totalmente “quadrado”.
O vocalista não se percebia (mas saltava, oyé!), a bateria era igual do princípio ao fim dos temas, o baixo não conseguia nada do ponto de vista rítmico, o guitarrista para além de alguns gestos mais ou menos pretensiosos também não conseguia salvar o esforço dos rapazes. Enfim, não acredito que estes “punks” consigam chegar onde quer que seja - é caso para perguntar se é forçoso que se cheque a algum lado?! - para além daquela “massa” sonora que fere os ouvidos no mau sentido, fazendo no entanto vibrar alguns “meus” talvez a curtirem algumas viagens agradáveis. (...)

(in revista "Música & Som" nº 32, Junho de 1978)

(...) “Há que violentar o sistema! Há que violentar o sistema! Há que violentar o sistema!” – gritava, com todas as forças que podia, o vocalista do Aqui d'el-Rock no primeiro concerto desta banda punk, no pavilhão de Campo de Ourique.
O som, fortemente distorcido e ensurdecedor, não deixou ouvir mais. E foi pena.
Aqui d'el-Rock é um grito de revolta e uma atitude política. O rock é a linguagem e as letras - a pedrada. Anunciado na nossa revista como o primeiro grupo punk português, Aqui d'el-Rock é um conjunto de quatro perigosos sujeitos cujo maior “perigo” é o estarem contra o sistema que os (nos) explora, subtil ou descaradamente, no dia-a-dia.
O Serra (baterista) e o Fernando (baixo) vivem em barracas pré-fabricadas no Bairro do Relógio.
O primeiro é servente de armazém e ganha cerca de seis contos que têm de chegar para sustentar, em conjunto com o ordenado da mãe, uma casa de família com um homem (o pai) inválido. 0 segundo é desenhador e, até à altura em que esta entrevista foi feita, ainda não tinha recebido o ordenado.
Depois, temos o Alfredo (guitarrista), estudante de Economia e professor de Filosofia, cargo de onde aufere quantia de três contos e seiscentos, e o Óscar (vocalista), também estudante de Economia e sem esperanças de trabalho.
O resultado destas situações é o Aqui d’el-Rock e a carga fortemente agressiva e política com que se dirigem aos “senhores” deste mundo por meio de letras cáusticas e subversivas (em português), e um som bruto, puro e arrasador de rock primitivo e violento.
Os elementos do Aqui d’el-Rock não são “punks” ortodoxos. “Se o punk é o que nós fazemos, então somos punks”, dizem-nos. Por outro lado, não cortaram o cabelo à “punk”, não usam alfinetes de dama espetados na orelha ou na boca e são (aparentemente) cidadãos normalíssimos desta terra. “Apenas” revoltados. (...)

(in revista "Rock em Portugal" nº 04, Maio/Junho de 1978)

(...) "Um dos poucos grupos punk a gravar no fim da década de 70, os Aqui d’el-Rock, a cantar em português. Posicionam-se contra o sistema:
'Somos revoltados desde que nascemos (...) quer dizer, nós queremos destruir a sociedade, na medida em que pretendemos uma melhor. Anarquistas? Não necessariamente... (...)

(in guia “Duzentos e Trinta e Um Discos Para Um Percurso pela Música Urbana em Portugal - 1961/2005” edição FNAC, Junho de 2005)

(...) Em 2004, o funcionário público José Serra, que vai fazer 50 anos, ex-servente de armazém, criou um site para “repor alguma verdade” em relação ao punk português e reencontrar os companheiros musicais. Foi assim que, quase 30 anos depois de se tornarem a primeira banda punk, a única que teve direito a um videoclip da RTP e a gravar dois singles, os Aqui d’El-Rock entraram na rede onde o passado se torna presente e intervém no futuro.
Foi assim que Rodrigo Velez, aka Jay Cobra, os encontrou.
Rodrigo não tem idade para entrar nesta história dos primórdios, nasceu no ano em que Sid Vicious dos Sex Pistols se suicidou, 1979. Mas é ele quem a torna redonda.
Neo-punk herdeiro de uma linhagem que começa nos Aqui d’El Rock e até hoje passa por dezenas de grupos (Crise Total, Cagalhões, Mata Ratos, Condenação Pacífica, Kú de Judas, Grito Final, Cães Vadios, M.A.D., We were Wolves, Bruto and the Cannibals, Allan Sqad, Motornoise, The Youths…), Rodrigo propôs a José Serra uma revisitação de “Há que violentar o sistema”, com a sua banda, os Clockwork Boys. Foi assim que a 23 de Outubro de 2005 José Serra se voltou a sentar à bateria para, pela segunda vez na vida, gravar "Há que violentar o sistema". Reencontrados os companheiros, fundou uma banda a estrear em breve: “Há Alma”.
Haja” (...)

(in revista "Pública" - suplemento dominical do jornal "Público" nº 513, Março de 2006)

(...) Foi o primeiro grupo Punk a conseguir um contrato discográfico e a gravar temas (...) que ficarão para sempre na história do Rock português por terem sido os primeiros temas de um grupo Punk gravados em Portugal (...)
(...) Hoje os discos dos Aqui d'el-Rock são das maiores raridades discográficas portuguesas, procurados por coleccionadores de todo o planeta. (...)

(in livro "Memórias do Rock Português" de Aristides Duarte, Abril de 2006)

(...) AQUI D'EL-ROCK. Agrupamento musical. Formado em Lisboa por José Serra (bateria), Fernando Gonçalves (baixo eléctrico), Alfredo Pereira (guitarra eléctrica) e Oscar Martins (voz e guitarra eléctrica), que constituíam o conjunto de baile Osíris (1976-1977). O Osíris, a par do repertório vocacionado para baile, interpretava também composições rock de grupos como Black Sabbath, Jethro Tull, Deep Purple, entre outros. A vontade de uma dedicação exclusiva ao rock e à composição de canções em língua portuguesa, inspiradas nos estilos associados ao punk inglês, determinou a reorientação do percurso do grupo, que passou a designar-se Aqui d’el-Rock. O grupo, que se estreou no Clube Atlético de Campo de Ourique (Lisboa, *1977), viria a protagonizar uma das primeiras manifestações do punk-rock em Portugal [VER Punk], o que foi enfatizado na edição dos dois primeiros fonogramas (*1977 e **1978), nos quais o termo punk aparece destacado na capa. Os escassos recursos utilizados na gravação, a fraca qualidade do registo sonoro e a utilização de alguns instrumentos construídos pelos próprios músicos evidenciaram o carácter amador do grupo, expressando igualmente o ideal de autenticidade, um dos valores centrais no movimento punk. Recorrendo à metáfora e à ironia, as suas canções abordam situações do quotidiano urbano como desemprego, a droga e a marginalidade. A agressividade do estilo musical e performativo, assente na simplicidade estrutural e nos ritmos vigorosos do punk-rock, reforçaram o carácter contestatário da sua música, reflectindo ao mesmo tempo a oposição à complexidade estrutural e ao virtuosismo do denominado “rock sinfónico” que se vinha a desenvolver desde o início da década de 70. Após a gravação do segundo single (**1978), o grupo partilhou espectáculos com outros grupos recém formados que desenvolviam estilos musicais inspirados no punk-rock (UHF, Minas & Armadilhas, Faíscas, Xutos & Pontapés, entre outros), destacando-se a participação no espectáculo do grupo inglês Eddie & The Hot Rods (Coliseu dos Recreios de Lisboa, 1979). A canção ‘Há que violentar o sistema’, uma referência no repertório do grupo, deu origem a um dos primeiros telediscos de um grupo português de rock (RTP, 1978). Já em 1980, após a saída de A. Pereira, Carlos Cabral (guitarra eléctrica) e Alberto Barradas (guitarra eléctrica e voz secundária) integraram o grupo. No mesmo ano o grupo participou em vários espectáculos de rock, entre os quais os de Lene Lovich, Wilko Johnson & The Solid Senders e Cheap Trick (Lisboa). Posteriormente o grupo adoptou a denominação Mau-Mau e criou um novo repertório enformado pelos estilos emergentes do new wave, de que são exemplo as canções ‘Xangai’ e ‘Vietsoul’ (1982). Apesar da curta carreira, o grupo destacou-se por criar um repertório de rock em língua portuguesa e protagonizou uma das primeiras manifestações do denominado rock português [VER Pop-rock]. O seu carácter pioneiro e marginal, inspirou o surgimento de outros grupos de rock. Algumas das suas canções integraram colectâneas revivalistas como a “Grande Geração Rock” (MTS, 1997), dedicada a grupos de rock portugueses, e “Killed By Death Vol. 41” (Redrum, 1998), dedicado ao punk-rock.
Discografia: (*1977) ‘Há Que Violentar a Sistema’ / ‘Quero Tudo’. MTS [single]; (**1978) ‘Eu Não Sei’ / ‘Dedicada (a Quem Nos Rouba)’. MTS [single]; Mau-Mau (1982) ‘Xangai’ / ‘Vietsoul’. Rotação [single]; AAVV (1997) Histórico (I): Geração do Rock. MTS; AAVV (2000) Killed By Death Vol. 7. Redrum Records [LP].
MIGUEL ALMEIDA
Errata: *Em vez de 1977 devia constar 1978. **Em vez de 1978 devia constar 1979.

(in Entrada sobre os Aqui d'el-Rock na "Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX", 1ª edição, Janeiro de 2010)

(...) Outra das coisas que a Revolução dos Cravos proporcionou, pois claro, foi liberdade – valor sem o qual, garante JC Serra, membro fundador dos Aqui d'el-Rock, o Punk nunca teria acontecido em Portugal: “IMPOSSIVEL. É preciso que isto apareça em maiúsculas. Antes do 25 de Abril um grupo como os Aqui d’el-Rock não poderia existir. Só a conquista da liberdade em 1974, tornou possível o aparecimento de um grupo como o nosso. Antes, isso não poderia ter acontecido, até porque qualquer músico que se preze, não consegue conviver com a censura do seu trabalho”.
O primeiro single dos Aqui d’el-Rock, datado de 1978, tinha por título “Há que violentar o sistema” e foi uma das primeiras consequências da chegada dos revolucionários ventos punk a Portugal. Os Aqui d’el-Rock foram um óbvio resultado da cultura rock existente em Portugal desde meados da década de 60 . Serra e Fernando Gonçalves, outro dos membros fundadores, tocavam juntos em bandas da zona do Bairro do Relógio, em Lisboa, desde pelo menos 1972. “Qualquer um dos elementos que integraram os Aqui d’el-Rock tinha uma forte cultura rock, alimentada desde a adolescência. Alguns já tinham tido experiências noutras bandas, onde tocavam material dos Led Zeppelin, Black Sabbath ou Deep Purple”, revela JC Serra, baterista original da banda. Apesar de existir uma cultura rock, não se podia propriamente falar numa “cena” organizada. (...)
(...) Serra adianta que a definição de “boom do rock português”, só começou a ganhar forma na época em que surgiram os Aqui d’el-Rock: “Acho que nesse contexto e nessa altura, se podiam classificar como bandas do género (punk) – além dos Aqui d’el-Rock – Os Faíscas, UHF, Xutos e Pontapés, Minas e Armadilhas… foi aí que se começou a definir uma cena, a tal que ganhou a designação “boom do rock português”. (...)

(in revista "Blitz" nº 07, Janeiro de 2007)

(...) Renegados como banda de culto, os Aqui d'el-Rock mantêm-se até hoje como um dos mais protegidos segredos de toda a música alternativa nacional. (...)
(in fanzine "C.R.H.C. nº 1", Março de 2012)

(...) No Portugal pós-25 de Abril de 1974 tudo se vive ao minuto. Se, por um lado, ainda se sente no ar a ditadura, que predominou durante décadas, e se desconfia da suposta liberdade, por outro, facilmente se cometem excessos com a ânsia de recuperar o tempo perdido. E se em Portugal tudo chega atrasado, mesmo nos dias que correm, no caso do Punk a situação foi diferente, pois chegou quase em simultâneo com a sua explosão no Reino Unido. Tal como no país de Sua Majestade, o marasmo criado pelo Rock Sinfónico criava azia a muito boa gente que ansiava por mudança. Outra similaridade entre Portugal e Inglaterra é que, também em terras lusas, se viviam tempos políticos conturbados. A Inglaterra atravessava uma grave crise económica e assistia à ascensão da National Front. Em Portugal tinha-se derrubado uma ditadura de direita e os movimentos políticos pós-Revolução dos Cravos (maioritariamente de esquerda) condicionavam, de certa forma, as vivências de cada um. Foi também no Reino Unido que se começou a marcar a influência lusa no Punk, através de dois irmãos portugueses que para aí foram residir formando The Warm. Rui Castro e George Castro juntam esforços com o jamaicano Leo Penante e no mais puro espírito "Do It Yourself" editam em 1976, na sua própria editora, a Warm Records, os singles (Ir s) The Kooler e Crazy Daisy Lady. O som da banda cruzava o Punk-Rock com algum Pub Rock e, nas edições seguintes, Ska e Reggae. Editariam. ainda o duplo 7" de 1977 The Demo Tapes, o single Floosie de 1978, o LP Nova Vaga, que reúne várias bandas em 1978, e os dois últimos singles em 1979: 007, que inclui uma cover com o mesmo nome de Desmond Dekker e Tired Of Waiting For You. Em finais de 1976 começam a chover em Portugal notícias sobre o Punk em Inglaterra, sobre o facto de se poder fazer músicas com 3 acordes e de como uma contracultura juvenil abanou e provocou uma sociedade tão conservadora. Um ano antes, Zé Serra, Fernando e Alfredo Pereira já tinham criado os Osíris, onde tocavam entre outras coisas versões de Led Zeppelin, Black Sabath, entre outros, mas é com a chegada do Punk que decidem tomar um caminho diferente e reclamar para si o perigo que tal cultura representava. Nascem então os Aqui D'EI-Rock, em 1977, com Serra e Fernando que aproveitam ainda Alfredo, militante do MRPP, vindo também dos Osíris. Fernando passa da guitarra para o baixo, Serra mantém-se na bateria, Alfredo assume as guitarras e é recrutado Oscar para a voz, que tinha familiares em França e de onde trazia alguns dos novos discos de Punk-Rock. Fica assim completo o line-up. Também algures em 77 nascem os Faíscas, banda de curta duração mas com alguns nomes que iriam dar cartas no panorama musical Português dos anos 80 em diante. Para sempre fica a dúvida de qual dos dois grupos (Osíris ou Faíscas) foi realmente o primeiro a nascer e a tornar-se na primeira banda Punk em Portugal. Bem diferente era o background de ambas as bandas, o que se notava na postura, atitude e letras. Os Aqui D'EI Rock vinham do Bairro do Relógio em Lisboa, um bairro marginal, onde se desenvolveu um sentido de luta de classes. Verdadeiros representantes da classe operária, acabavam por ter uma atitude mais Punk do que os "ditos" punks, apesar de visualmente o não aparentarem.
(in "Portugal Eléctrico!" Contracultura Rock, 1955-1982 - Groovie Records, Dezembro de 2013)