"Zé Serra - Eu acho pessoalmente que o grupo não vai durar muito tempo..." (in "Música & Som" nº 46, Abril de 1979).
Quando em 1977 os Aqui d’el-Rock nasceram, foram apelidados de oportunistas pelos que em Lisboa se auto-proclamavam de punks autênticos – uns certos betinhos da Av. de Roma e seus acólitos.
Dois dos elementos fundadores da banda, José Serra e Fernando Gonçalves, já se tinham juntado em 1972 quando formaram a sua 1ª banda no sítio onde viviam, o Bairro do Relógio (aka Bairro do Cambodja), bairro que viria a tornar-se um dos mais marginais de Lisboa e que já nos anos 90 foi demolido, alegadamente devido ao contínuo agravamento dessa marginalidade e aos graves problemas sociais que originava.
Integravam a banda na sua formação original, a que se apresentou no seu 1º concerto no C.A.C.O. (Clube Atlético de Campo de Ourique), os já referidos Serra (bateria) e Fernando (baixo), o Alfredo Pereira (guitarra), os três que já faziam parte de uma formação anterior (Osiris), e o Oscar Martins (voz e guitarra), colega do Alfredo na Faculdade de Economia de Lisboa (I.S.E.), que se juntou aos demais precisamente para completar e lançar o projecto Aqui d’el-Rock.
A concepção da banda foi na verdade fruto de uma conjugação de circunstâncias, que levaram o seu colectivo a achar-se no direito de reclamar o espírito do movimento punk como sendo seu também, já que esse espírito representava na sua essência algo que tinha a ver com o sentir do grupo, ou seja, uma grande revolta quer em relação à cena rock nacional e internacional, quer em relação à organização da sociedade em geral, além de que poderia eventualmente ajudar a descobrir vias por onde pudessem fazer passar os seus idealismos musicais.
Três anos após a chamada Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974), viviam-se em Portugal grandes transformações, grandes expectativas, mas também imensas dificuldades a muitos níveis. Conscientemente o grupo assume essas vivências e sem concessões escolhe a sua própria filosofia; e é com grande naturalidade que os Ad'R acabam por liderar essa corrente apelidada de “boom” do rock português, onde as novas bandas procuram fazer coisas diferentes. Temas fortes com letras corrosivas, som agressivo e muito poderoso, alguma experiência de palco a par com a novidade, são os principais factores para que tal aconteça.
Falta o dinheiro para a compra de material, ou para pagar o aluguer de um estúdio para trabalhar/ensaiar. A 1ª guitarra do Fernando é construída pelo próprio; a bateria é comprada à peça e fabricada por um artesão que a vai construindo conforme a possibilidade de pagamento; o P.A. de voz é adquirido em 2ª mão a um grupo de baile e em muitas prestações, servindo na prática também como amplificador de guitarras. Os locais de ensaio são os mais diversos e as mudanças compulsivas sucedem-se, devido sobretudo às queixas pelos incómodos provocados na vizinhança que reclamava do excesso de decibéis. Mas nessa época há muita vontade e dinamismo e o resultado desse empenhamento começa a dar frutos em meados de 1978, com a gravação de um 1º single que incluía o mítico “Há que violentar o sistema” e a apresentação oficial no já referido espectáculo no C.A.C.O., ambos citados na imprensa ligada ao meio e não só, o que constituiu também algo de raro e inovador, tal como o próprio espectáculo que até registou uma encenada invasão de palco por parte dos elementos de outro grupo conotado ao punk - Os Faíscas. Aliás, os Aqui d’el-Rock acabaram por forçar a RTP a produzir o 1º video-clip português, imagens raramente exibidas.
Devido à sua incómoda postura, a banda foi alvo de censura, a tal que deveria ter acabado com a ditadura fascista, numa perseguição que lhe foi movida e aplicada com as mais esfarrapadas justificações, que se estendeu à sua memória e que se manteve através dos tempos até à actualidade.
Seguiu-se um período de grande actividade onde o grupo gravou o 2º single, participou em programas das principais rádios nacionais (Renascença e Comercial), e actuou em vários espectáculos de norte a sul do país, nalguns até dando a mão a algumas das bandas que tentavam despoletar, nomeadamente:
- UHF com o concerto no salão da cervejaria “O Canecão” em Cacilhas, Almada.
- Os Faíscas e UHF na discoteca “Browns” em Alvalade, Lisboa.
- Xutos & Pontapés e Minas & Armadilhas na escola “D. Pedro V” em Sete Rios, Lisboa.
- Festival rock luso/espanhol, conjuntamente com os portugueses Tantra e duas bandas do país vizinho no estádio do Sporting Clube Farense, Faro.
Festas de finalistas, primeiras partes de concertos de grupos estrangeiros, festas de cariz popular, etc. Todos estes espectáculos tendem a envolver muita irreverência e as condições em que são feitos ou tentados, são quase sempre deficientes, por vezes mesmo muito más e onde muita coisa inusitada acaba quase sempre por acontecer:
- Troca de mimos e provocações verbais entre elementos do grupo e parte da audiência; espera e ameaça de agressão física na chegada à localidade da realização do concerto; interacção do público com os músicos e os instrumentos; arremesso de fruta para o palco originando avaria de amplificadores; tentativa de corte de cabos eléctricos à navalhada; colunas de som pintadas de fresco; repetição de quase todo o reportório devido à imposição de enormes “encores”; impossibilidade de realização da prevista abertura de concerto, devido a birra do vocalista da banda cabeça de cartaz (Uriah Heep), por alegada enxaqueca provocada pelo ensaio dos Ad’R nos camarins; som boicotado por parte dos técnicos em algumas das primeiras partes de bandas estrangeiras; atraso de várias horas devido ao desaparecimento do organizador do evento que só havia procedido a parte do pagamento do “cachet” contratado; interrupção provocada por queda de chuva em pleno palco do pavilhão da escola, devido a um súbito rombo no telhado causado por tempestade; fortíssima interferência de ruídos de ondas de rádio provocados pela proximidade das respectivas antenas; improvisação aquando da falta de cordas ou baquetas suplementares; palco em deficientes condições de segurança ou com espaço muito reduzido; salas sem condições acústicas; mau som de P. A. etc, etc.
Tudo ou quase tudo, era ainda feito na base do amadorismo e os contratos não chegavam, nem pouco mais ou mais ou menos, para pagar a uma equipa de apoio; eram os próprios músicos ajudados pelos amigos (cuja a remuneração se resumia no pagamento da alimentação), que efectuavam todo o trabalho envolvente aos espectáculos, desde o transporte e montagem dos equipamentos, até aos contactos com as respectivas organizações (um concerto num sábado em Chaves, por exemplo, ocupava um fim-de-semana de sexta a domingo com as consequentes directas pelo meio).
É com enormes dificuldades na contratação de uma empresa para assegurar o som, que acaba por ser realizado com o equipamento dos Tantra, que os Aqui d’el-Rock efectuam a 1ª parte do 1º concerto de uma banda punk internacional em Portugal, os Eddie & Hot Rods no Coliseu de Lisboa em 1979. Aí se começa a perceber que a sobrevivência da banda só poderia vir a acontecer com base no profissionalismo e assente numa orgânica para o suporte burocrático, onde a preocupação fundamental dos músicos fosse… a música.
Na passagem para a década de 80 dá-se a crise de crescimento da banda, que coincide mais uma vez com a falta de local para ensaiar, com o final de curso e a entrada no mercado de trabalho dos elementos estudantis e com a necessidade de evolução do som do grupo. Sai o Alfredo e entra de imediato o Carlos Cabral – “Carlitos Police” (guitarra) e mais tarde o Alberto Barradas (guitarra e voz). E é já em plena década de 80 que finalmente conseguem alugar um estúdio de ensaio em Odivelas, o mesmo aonde trabalhava a Go Graal Blues Band, onde o colectivo se lança num imenso trabalho de composição e onde de uma forma quase insaciável, procura desenvolver as ideias que cada um dos elementos vai apresentando para se alcançar o desejado objectivo de construção de um novo reportório, assente numa nova estética musical.
Todas estas mudanças impuseram novos figurinos em várias vertentes e uma necessidade de mudança até no nome da banda, que a liberta-se de um certo estigma que a ligava ao movimento punk e que acabava por lhe restringir algum espaço, que parecia tão necessário ao seu crescimento. Definitiva e envergonhadamente desapareciam os Aqui d’el-Rock e surgiam no seu lugar os Mau-Mau. Neste lapso de tempo registam-se alguns acontecimentos, onde as duas identidades se confundem e por onde ainda chega a passar de uma forma quase meteórica, o ex Corpo Diplomático - Carlos Gonçalves, “Ultravioleta” (voz), que faz parte da formação que ajuda a suprir a falta do Carlitos “Police”, impedido pelo serviço militar, aquando das primeiras partes dos concertos de Lene Lovich no Porto e em Cascais, no âmbito da celebração do 1º aniversário do programa de rádio Rock em Stock, em Maio de 1980. A banda adquire muita experiência neste novo fôlego, alguns dos seus elementos inclusive obtêm a carteira profissional através do sindicato dos Músicos e o grupo realiza uma considerável série de espectáculos, alguns de bastante impacto à época, aonde para além do já citado, se salientam os seguintes:
- Wilko Johnson & The Solid Senders + Xutos & Pontapés no Pavilhão do Restelo, Lisboa.
- Concerto a solo na Escola Náutica de Paço d’Arcos, com produção de Manuel Cardoso (Tantra).
- Cheap Trick na Nave de Alvalade, Lisboa.
- Go Graal Blues Band na sede do Clube Oriental de Lisboa.
- Concerto a solo no "Rock Rendez-Vous", Lisboa.
- Maratona do rock do jornal "Musicalíssimo" no Pavilhão de Feiras do Cevadeiro, Vila Franca de Xira.
Entre o final de 1981 e o início de 1982 chegava a fase decisiva da vida dos ex Aqui d’el-Rock, agora Mau-Mau, com a gravação e edição de um single, cujos os dois temas revelavam alguma da imaginação dos seus restantes quatro elementos, Fernando, Serra, Oscar e Alberto. “Xangai” no lado A, um tema construído em contratempos cujo o canto é feito sem recurso a líricas e “Vietsoul” no lado B, que como o próprio nome indica é cantado em inglês e que contou com a especial participação de João Allain (Go Graal Blues Band), no solo de guitarra. A edição foi efectuada pela etiqueta "Rotação", propriedade do conhecido locutor de rádio António Sérgio, que também assinou a produção e que manifestou mais uma vez a sua pouca consideração pela banda, ao efectuar as misturas sem a presença de qualquer elemento da mesma, contrariando o que havia sido estipulado. Aliás este foi o seu segundo acto de pouca lisura para com o grupo, pois já anos antes havia proferido de uma forma nada corajosa, declarações difamatórias da banda durante um seu programa na Rádio Renascença. Estes dois temas ainda serviram de inspiração ao apresentador de televisão Júlio Isidro, que os colocou como pano de fundo de um dos episódios dominicais do seu programa televisivo “O Passeio dos Alegres”, mas funcionaram como o canto do cisne da própria carreira.
Efectivamente o grupo nunca foi capaz de assumir o profissionalismo que se impunha e traçar um rumo definido e definitivo, que o fizesse ultrapassar as dificuldades e o ajuda-se a impor no meio musical português, já de si pequeno, confuso e numa fase de muita competição. Por essa ocasião ainda, acentuaram-se as já notórias diferenças de expectativa de vida no seio dos elementos do colectivo, que aprofundaram o crescente défice de articulação, de liderança e de ambição, causas principais para o inglório desmembramento dos Mau-Mau e encerramento do projecto iniciado em 1977.
Dos Aqui d’el-Rock fica no (a)final, algo mais para lá do grito - “Há que violentar o sistema!"
P. S. - Das posteriores ligações ao meio musical dos elementos que participaram nos Ad'R, referência à iniciativa que o Oscar e o Alberto tentaram empreender logo depois (1984/86), à do Fernando também em parceria com o Alberto sob o título de Imortal Cancer (1987/90), às do Carlitos “Police” Cabral, quer como membro fundador dos extintos Margem Sul, quer como sócio do estúdio de gravação/produção - Boom Estúdio, à participação do Carlos “Ultravioleta” Gonçalves no grupo Raindogs como vocalista, à colaboração (final de 2005) do Zé Serra na gravação de 4 temas com os Clockwork Boys - que incluiu uma nova versão do clássico “Há que violentar o sistema”, e ao projecto "ha alma" concebido em 2006 por aqueles que constituiram o seu núcleo duro - Fernando Gonçalves, Oscar Martins e Zé Serra.
Entre os meados de 2009 e 2010 houve a tentativa, não consumada, de constituir uma 2ª dinastia dos Ad'R, denominada de Aquidelrock II. Fizeram parte desse elenco: Oscar Martins (voz principal e baixo), Zé Serra (bateria), João Damásio (guitarra e voz de apoio), David Amaral (guitarra e voz de apoio) e Katy (voz de apoio). Do trabalho realizado resultou a gravação de 3 temas - novas versões de "Eu Não Sei" e "Quero Tudo" e uma aglutinação de "Dedicada (a Quem nos Rouba) com "Há Que Violentar o Sistema" baptizada de "Dedicada... ao Sistema". (Estas 3 músicas estão inseridas no leitor de streaming na página "Extras", conjuntamente com "covers" de outras bandas).


Inventário dos concertos:

 29/04/1978 - Lisboa, Pavilhão do Clube Atlético de Campo de Ourique
 06/05/1978 - Cacia
 27/05/1978 - Barreiro, Casquilhos
 03/06/1978 - Leiria
 08/07/1978 - Lisboa, Coliseu (1ª parte "Eddie & Hot Rods")
 05/08/1978 - Faro, Estádio de S. Luís
 29/09/1978 - Condeixa-a-Nova
 21/10/1978 - Covilhã
 18/11/1978 - Lisboa, Brown's Club
 24/11/1798 - Lisboa, Cine-Teatro da Encarnação
 03/02/1979 - Águeda
 10/02/1979 - Castelo Branco
 17/02/1979 - Almada, Canecão
 29/04/1979 - Tomar
 05/05/1979 - Lisboa, Liceu D. Pedro V
 12/05/1979 - Chaves
 26/05/1979 - Coimbra, Olivais
 23/02/1980 - Lisboa, Pavilhão de "Os Belenenses" (1ª parte "Wilko Jonhson")
 18/04/1980 - Paço de Arcos, Escola Náutica
 25/04/1980 - Lisboa, Alameda da Universidade
 17/05/1980 - Porto, Pavilhão do Infante de Sagres (1ª parte "Lene Lovich")
 18/05/1980 - Cascais, Pavilhão do Dramático (1ª parte "Lene Lovich")
 06/06/1980 - * Porto, Pavilhão do Infante de Sagres (1ª parte "Uriah Heep")
* O grupo esteve presente, o contrato foi pago mas não houve actuação
 12/06/1980 - Lisboa, antiga F.I.L.
 14/11/1980 - Lisboa, Pavilhão de Alvalade (1ª parte "Cheap Trick")
 03/04/1981 - Caldas da Rainha
 11/04/1981 - Lisboa, Clube Oriental de Lisboa
 23/04/1981 - Lisboa, Rock Rendez Vous
 11/07/1981 - Glória do Ribatejo
 18/12/1981 - Vila Franca de Xira (Mau-Mau)


Gravações:

 09/06/1978 - 1º single; Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
 09/08/1978 - Video-clip "Há Que Violentar o Sistema", RTP (Filmagens na zona dum palacete em ruínas junto ao Hospital Curry Cabral, Lisboa)
 ??/??/1979 - 2º single; Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
 15-16-28/12/1981 & 04/01/1982 - Single "Mau-Mau"; Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa


Outros acontecimentos:

 13/03/1982 - Participação no programa da Rádio Comercial "Febre de Sábado de Manhã"; Cinema Nimas, Lisboa (Mau-Mau)
 28/03/1982 - Participação no programa da RTP "Passeio dos Alegres"; Estúdios do Lumiar, Lisboa (Mau-Mau)