RTP / Rádio Antena 1 - Programa "Os Pais do Rock"; emissão nº 4 de 28 de Fevereiro de 2014:

- Os percussores do movimento 'Punk-Rock' em Portugal.

... ouvir a entrevista com António Jorge.


Extractos da entrevista de Pedro Ferreira, "Música & Som" nº 46 - Abril de 1979:
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M&S – Mas qual é a importância da música “punk”, da vibração intensa, frenética, imperativa que só se pode recusar ou aceitar como uma espécie de ritual colectivo? Porquê a música motorizada sem esperança?
Óscar – Há um certo êxtase... mas não queremos arregimentar hostes cegas. A gente leva uma vida intensa, e só nos interessa viver intensamente; as pessoas têm de viver urgentemente senão tornam-se cadáveres ambulantes...
Alfredo – É uma música que traduz um modo de vida. O “modus vivendi” que nos é próprio, mas muito mais a vida de muitas pessoas; traduz a oposição dos que agem e a vida dos que aceitam. E isto reflecte-se naquilo que dizemos.
(alguém) – A gente tinha uma cultura rock – uma cultura rock não oficializada de preferência, isto é, não a música massificada... numa música viva e actuante não existe essa cultura.
Alfredo – A agressividade com que tocávamos era o resultado da nossa vida de desempregados.... são as forças vivas que retirámos do que fomos vivendo que nos levam ao que fazemos hoje.
M&S – E em relação a saídas? Na Grã-Bretanha há grupos que se reivindicam do socialismo ou da anarquia, dentro da “New Wave”, estou-me a lembrar de “Anarquia… hhmmmm...”, no Reino Unido,...
Alfredo – Ai a confusão que vai nessa cabeça...!
Óscar – “Anarchy in U.K.”, dos Pistols.
M&S – É isso, os Sex Pistols por exemplo, ou os Clash, ou os BuzzCocks...
Óscar – Não queremos dizer às pessoas que devem fazer isto ou aquilo. Nós transmitimos as nossas experiências, gritamos “alerta”, dizemos que estamos vivos. A partir daí as pessoas desenvolvem, têm de ter a cabeça oleada, senão...
Alfredo – Em termos gerais, todos nós temos ideias de um sistema se de esquerda, se de direita. Há um ano era mais fácil, mas sabemos o campo político por que optamos.
Óscar – Não somos mestres pensadores, guias de qualquer espécie...
M&S – Influências dos “novos filósofos” franceses?
Óscar – Não, eu disse – “mestres pensadores” mas sem nenhuma intenção, só relacionei depois.
Zé Serra – Nós só dizemos que há que violentar o sistema, não afirmamos que o vamos fazer ou como o vamos.
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Zé Serra – Eu pessoalmente acho que o grupo não vai durar muito tempo porque não podemos evoluir.
M&S – Mas vocês hão-de ensaiar nalgum lado!
Óscar – Não, até tivemos dois meses e meio seguidos sem ensaiar, fomos expulsos da sala onde estávamos porque incomodávamos os padres da Igreja ao lado.
Alfredo – Para além de nenhum de nós estar interessado em acabar com o grupo, há uma série de dificuldades que se têm de resolver num prazo X – não é a questão de acabar com o grupo que se põe; é a questão dele se extinguir se as coisas não mudam. Não vale a pena andar a engonhar como outros grupos; nós não esgotámos todas as possibilidades de evolução, muito longe disso.
Zé Serra – Eu também acho isso, mas não temos hipóteses de as esgotar.
M&S – E quanto é que vocês ganham sempre que actuam?
Alfredo – Nada. Vai tudo para aparelhagem, transportes, alimentação quando é na província (são na província os melhores contratos). Não temos nem o mínimo dos mínimos. Quando os Hot Rods vieram cá e nós tocámos nos 2 concertos deles, pagaram-nos ao todo 12 contos. Foi indecente, só aceitámos por causa da promoção.
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Extractos da entrevista de António Duarte, "Rock em Portugal" nº 4 - Maio/Junho de 1978:
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E estivemos ali todos reunidos. Além dos músicos, a equipa técnica: o Acácio – “alancador” (não nos perguntem o que quer dizer, por favor), o Silvino (Pi-flin) – “alancador”, o Alfredo II “mechedor de botões”, o Zé da Velha “alancador” e o Spínola (faz golpes de estado nos “flippers”).
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RP – Porquê “Aqui d’el-Rock”?...
Serra – Somos um grupo de gajos que vivem, desde há uns anos à brocha... Somos músicos sem formação básica de conservatório e essas coisadas todas. Somos os chamados músicos orelhudos, como alguém nos chamou. Nós somos os orelhudos, né? Começámos há uns anos a fazer barulho. Fomos juntando umas colunas, uma bateria feita aos bocadinhos e mais umas coisas... Verificámos, então, que havia um certo movimento de músicos que não têm possibilidades monetárias de fazer grandes coisas, agarrámos nessa ideia e fazemos o que sempre desejámos fazer...
RP – Vocês entraram para o punk por oportunismo?
Serra – Nós, para já, não nos auto-denominamos... como é que é... é assim que se diz? - de punk. Temos uma série de ideias que, em grande parte, coincidem com as do punk. Se o punk for aquilo que nos propusemos a fazer, somos punk. Se não for, não somos punk. Para já, não nos auto-denominamos de punk.
RP – Então o que é isso que vocês fazem?
Alfredo – O que a gente está a fazer é uma música que sempre gostámos. Se isso é punk pois nós somos.
RP – Que é que vocês pensam do movimento punk?
Serra – Bom, a gente pensa do punk aquilo que nos dizem, porque nunca fomos a Inglaterra ou à América – não temos dinheiro para isso – ouvir grupos punk. Disseram-nos que são grupos, que querem dar ao rock aquilo que tinha no início, a força, a espontaneidade, e que agora foi desvirtuado pelos intelectuais. Nós, para já, alinhamos nessa ideia. E daí vem o nosso nome. Aqui d’el-Rock é uma espécie de chamada de socorro para que o rock venha a acudir a toda esta engrenagem que anda metida nesta música,... (ruído estridente de um avião a passar...). Nós demos agressividade, não só na música como nas palavras – em português – contra tudo isto que está mal, contra o sistema que nos querem meter pelos cornos abaixo, contra a vida que levamos. Eu, por exemplo, andei cerca de quatro a cinco anos desempregado. Arranjei trabalho há pouco tempo. Sou servente de armazém, né... os outros são gajos que estudam e têm de matar a cabeça para terem alguma coisa de bom. Um outro trabalha e recebe, às vezes, de cinco em cinco meses. Há que denunciar tudo isto!
RP – São revoltados
Serra – Somos revoltados desde que nascemos!
RP – Querem atacar quem?
Serra – Queremos atacar tudo o que seja de atacar, dentro do nosso ponto de vista. É o sistema capitalista, é o outro sistema, o chamado sistema “chuchialista”, que no fundo, só serve para abafar certo tipo de problemas,… isto não é estar a dizer que somos contra o socialismo.
Alfredo – Nós estamos contra o chamado “chuchialismo” e não contra o verdadeiro.
Serra – Estamos contra a forma como eles nos tentam impingir que “vamos a caminho do socialismo”, de “uma vida boa”, etc.,... no fundo só reformulam o sistema capitalista. Este sistema e tudo o que gira à volta, o fascismo, e toda essa merda, só servem para continuar a exploração do homem pelo homem.
RP – Consideram-se, então, uma banda política.
Serra – Nós consideramo-nos uma banda de rock que tem muito a ver com o punk, se o punk for isso.
Alfredo – Bom, tudo na vida é político. Contudo o rock tem sempre objectivos políticos, quer sejam imediatos, quer sejam, mais ou menos, implícitos. E a verdade é esta: - pensamos que o rock não é incompatível com uma determinada visão da sociedade e que pode complementá-la, de certo modo. Quer dizer, nós queremos destruir a sociedade, na medida em que pretendemos uma melhor.
RP – Anarquistas?
Alfredo – Não necessariamente...
Serra – Chama-nos aquilo que quiseres.
Alfredo – Nós não somos políticos, estás a topar? Não somos políticos de profissão...
Serra – Portanto, não sabemos qual é o melhor sistema. Queremos coisa melhor onde não haja a exploração a que somos sujeitos no dia-a-dia.
RP – E podem chegar lá através do rock?
Serra – Não sabemos. O que sabemos é que o rock pode ajudar. Se fossemos como todos esses gajos – e cá em Portugal já os há – que tocam rock só para passar o tempo, para as pessoas curtirem naquilo e esquecerem os problemas, então é que não chegávamos a parte nenhuma. Se o punk é o que fazemos, pois claro nós somos punk! Queremos chamar as pessoas para as realidades, não como fazem os músicos de rock sofisticado! Pronto! Eu sou assim, às vezes, um bocado speedado a falar.
Alfredo – O rock que estamos a fazer, quer em termos de música, quer em termos de letra, tem o objectivo de ser simples. E simplicidade não é sinónimo de merda. A letra tem de ser mais qualquer coisa do que as palavras que tem. Vale essencialmente pelo conteúdo. Com base nessa simplicidade queremos chamar a atenção para qualquer coisa. Se fizéssemos uma música muito sofisticada as pessoas alienavam-se, embrenhavam-se na música e não ouviam o essencial. É neste sentido que o rock pode ter um papel político.
RP – As vossas letras são capazes de chocar os puritanos (ou os falsos puritanos). Que é que vocês pensam se, por hipótese, estivessem em actuação e a polícia suspendesse o concerto por causa do teor das letras, alegando “ofensas à moral pública”?
Fernando – Não me admirava nada.
Serra – Não estamos deliberadamente à espera disso, só que não pomos a hipótese de parte. Para já, estamos contra a polícia como garantia do sistema, portanto é natural que eles também não gostem de nós.
Alfredo – Uma coisa que queria dizer é que, embora o punk seja normalmente visto como o “punk da cruz suástica”, nós somos radicalmente contra isso.
RP – Mas eles dizem que usam cruzes suásticas para chocar e que não são fascistas...
Serra – Tá bem, mas um gajo pode chocar arranjando outras formas novas de chocar, sem fazer o jogo dos fachos. Por exemplo os Sex Pistols chamaram fascista à rainha de Inglaterra. Claro, ela é fascista! Não tenho puto de problemas nesse aspecto. Realmente estou de acordo com os gajos.
Alfredo – Isso é gratuito... há muitas maneiras de dizer as coisas. A nossa preocupação ao fazer as letras é que tenham qualquer coisa a ver com a realidade. Sobretudo, não procuraremos nas palavras aquilo que somos impotentes de dizer.
Serra – Uma coisa importante é que o punk veio abrir muito o campo da linguagem utilizada nas letras. No punk-rock utilizam-se as palavras que são ditas no dia-a-dia, os palavrões e o calão incluídos – desde que devidamente utilizados. Não é dizer um palavrão só porque está na moda. Nós utilizarmos essa linguagem até porque é mais entendida pelas pessoas.
RP – Vocês não são muito violentos ao vivo?
Óscar – Não somos arruaceiros baratos. Não somos a violência pela violência. É isso. Somos violentos, principalmente, naquilo que dizemos, porque isso de chegar ali e partir tudo pode significar muita coisa mas passa despercebido se não se acompanhar pelo que se diz.
RP – Se algum crítico disser mal de vocês que é que lhe fazem?
Serra – Bem, a gente caga nos críticos, para já! A maior parte dos críticos fazem parte do sistema. E isso se te toca a ti, desculpa lá. Desculpa nada!
RP – Não enfio a carapuça. Até porque nem sou crítico... sou um simples jornalista.
Serra – Ainda bem.
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